Publicado em 17/04/2026
O Laboratório de Tratamento e Conservação de Documentos em Papel da Escola Judicial Desembargador Edésio Fernandes (EJEF), em Belo Horizonte, recebeu a visita técnica de alunos do curso de Conservação e Restauração de Bens Culturais Móveis da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), para a realização de atividade prática sobre identificação e tratamento de documentos afetados por tinta ferrogálica — composta por ferro e outros metais que, ao longo do tempo, corroem o papel.
A ação educativa integrou a disciplina “Tinta ferrogálica: aspectos químicos, tratamentos convencionais e alternativos”, ministrada pela professora Camilla Henriques Maia de Camargos. Durante a visita, os estudantes tiveram contato direto com documentos históricos e com procedimentos técnicos de conservação.
Sônia Santos, coordenadora da Coordenação de Arquivo Permanente (COARPE), explicou que a proposta foi aproximar os alunos da rotina do laboratório.
“Este é o momento em que eles têm contato com a parte prática. O laboratório do Tribunal tem sido uma referência. Aqui, apresentamos os procedimentos de tratamento de processos judiciais, como o controle de fungos, o tratamento de mofo, a velatura e a estabilização do suporte do papel”, afirmou.

Ela detalhou intervenções voltadas à recuperação de documentos afetados por tinta ferrogálica.
“Trata-se de uma tinta utilizada em processos do século XIX, composta por ferro e outros metais, que corrói o papel. Aqui, realizamos tratamentos para recuperar o suporte do papel afetado por esse tipo de tinta”, acrescentou.
A professora Camilla Henriques Maia de Camargos destacou o caráter formativo da experiência.
“A ideia é que os estudantes se tornem capazes de identificar a tinta ferrogálica e os diferentes mecanismos que podem ter contribuído para o seu estado de conservação, de modo que possam atuar na conservação e na preservação de documentos”, disse.

Ela também explicou a escolha do local da atividade.
“A escolha do arquivo do Tribunal de Justiça se deve ao fato de que a instituição possui um grande contingente de documentos em tinta ferrogálica. Além disso, é um espaço relevante por congregar muitos estudantes e egressos do curso de conservação e restauração da UFMG”, disse.
O conservador-restaurador da COARPE, Maycon Felipe Amaral, apresentou aos alunos as características da tinta ferrogálica e seus efeitos ao longo do tempo.
“A tinta ferrogálica é muito comum, sobretudo em documentos dos séculos XVII, XVIII e XIX. A disciplina busca compreender sua composição e os tipos de degradação que ela provoca”, pontuou.

Ele expôs os critérios de seleção dos materiais analisados.
“Selecionamos documentos com diferentes estágios de degradação — como casos de migração da tinta ou de perda de suporte — para demonstrar as variações de coloração, relacionadas ao tipo de receita utilizada e ao tipo de papel”, afirmou.
A migração da tinta e a perda de suporte são processos de degradação físico-química que afetam documentos antigos, sobretudo os produzidos com tinta ferrogálica. A elevada acidez e a oxidação provocada por íons de ferro contribuem para a deterioração do papel e comprometem a legibilidade dos registros.

Ainda segundo Maycon, a ação buscou proporcionar aos alunos contato direto com o acervo.
“Apresentamos aos alunos todos os documentos que contêm tinta ferrogálica, para que tenham contato direto com exemplares reais. A forma de exposição — como umidade ou luz direta — contribui para a degradação dessa tinta, por meio de processos químicos internos”, completou.
O Laboratório de Conservação e Pequenos Reparos de Documentos Judiciais Históricos, vinculado à EJEF, atua na preservação de documentos em papel de alto valor histórico.
Criado em 2018, o setor realiza procedimentos como higienização, tratamento de fungos, lavagem, estabilização e reparo de suportes, com foco na preservação da memória do Judiciário mineiro.

Durante a ação educacional, foi apresentado aos alunos um documento recém-descoberto, ainda em fase inicial de estudo, datado de 1729, proveniente da antiga Vila Rica, atual Ouro Preto. O material consiste em um inventário de bens e integra o conjunto de documentos históricos sob responsabilidade do laboratório, sendo, atualmente, o mais antigo do acervo, com quase três séculos.





